sábado, 31 de julho de 2010

Guerra de facções

Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Por Juremir Machado da Silva

Polícia Civil e Ministério Público Estadual bateram cabeça. Numa boa. Quer dizer, numa má. Só que nenhuma parte pode admitir que passou ou tomou rasteira. Apesar de o MPE ter desautorizado publicamente a PC, os discursos tentaram ser conciliatórios. Mas não colou. O MP, como todo mundo sabe, corrigiu a investigação da PC sobre a morte de Eliseu Santos. Estava fácil demais. Por um momento, tivemos um orgulho sem tamanho da eficiência dos nossos investigadores. Tudo fora resolvido em tempo recorde. Os bandidos haviam sido pegos. Era coisa de ficção científica. Uma Polícia do futuro, técnica e espetacularmente ágil. Aí veio o MPE e, como quem não quer nada, jogou com tudo um tijolo na vidraça dos vizinhos. Depois, cautelosamente, explicou que era normal, apenas um procedimento rotineiro. Uau!

As dúvidas permanecem. Por que o MPE não pediu à Polícia Civil para refazer o dever de casa? Por que o MPE chamou a Brigada Militar para realizar diligências normalmente executadas pela Polícia Civil? Por que o MPE deixou vazar informações para a mídia na Quinta-Feira Santa e marcou uma coletiva para depois do feriado? Por que o MPE não deu a menor sinalização à Polícia Civil sobre a ampliação das investigações? O MPE fez, ao que parece, um belo trabalho. O trabalho que a Polícia Civil deixou de fazer. E ainda usa bem as palavras: em lugar de investigação paralela prefere investigação complementar. É outro enfoque, outro estilo, outra realidade. Só que nas ruas a percepção é muito mais simples: a Polícia Civil precipitou-se, concluiu um inquérito em tempo recorde e bateu de cara na parede. O MPE acabou com a festa. Estava tudo errado.

Como diz o bordão, o povo não é bobo. E gosta de espetáculo. Quer diversão e circo. Adorou a guerra entre o MPE e a Polícia Civil. Afinal, praticamente ninguém jamais acreditou na tese do latrocínio. Em cada esquina, um popular repete o refrão: tinha e tem coelho nesse mato. E coelho aparece na Semana Santa. É só procurar bem que os ovinhos são achados. Para isso, claro, é preciso meter a mão no ninho. Só que é ninho de cobras. O MPE jura que achou o ninho. A Polícia Civil pagou o pato. Nesse zoológico, bom cabrito é o que mais berra. A PC berrou. O MPE, na manha do ganso, deu o coice e recolheu a pata. Agora é com a Justiça. A Justiça, como sabemos todos, tarda e falha. Nem por isso vamos desprezá-la. Segue o baile.

Eu tenho outra tese. É meu ofício. Sempre tenho outra tese. Quando não tenho, invento. Depois, faço como a Polícia Civil. Bato pé. Não volto atrás. A minha tese é que foi latrocínio por acaso. Os bandidos estavam lá para cometer um crime encomendado. Haviam preparado tudo de maneira a confundir a Polícia. Fizeram tudo o que normalmente não se faz numa execução. Só para confundir os investigadores. Na hora, porém, de entrar em cena, esqueceram o roteiro e, para não perder a viagem, praticaram um latrocínio. O efeito foi o mesmo. A pena é que será diferente. Nada que a progressão de regime não resolva. 

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